A humanidade sempre preferiu morar perto da água doce, onde a terra é mais fértil e a irrigação, fácil. Mas às vezes os rios se rebelam. O resultado é uma tragédia.
por Igor Fuser (SUPERINTERESSANTE)
Nenhuma região do planeta está livre desse tipo de calamidade – com exceção dos desertos, obviamente. Para uma enchente, basta existir um rio e pessoas morando nas suas margens. É inevitável. Um dia ele vai transbordar, arrastando tudo o que suas águas alcançarem.
As enchentes são especialmente temidas nos deltas férteis dos grandes rios, que abrigam enormes aglomerados de gente: o Mississipi, nos Estados Unidos, o Gânges, que depois de banhar a Índia deságua em Bangladesh, os rios Azul e Amarelo, na China. Elas são causadas, quase sempre, pelo aumento da quantidade de chuva ou pelo derretimento abrupto das neves nas montanhas. No sul da Ásia, os ciclones multiplicam a ação nefasta das enchentes.
É difícil, muitas vezes, determinar se as enchentes são um cataclismo positivo ou negativo. As mesmas águas que destroem as casas trazem as substâncias que fertilizam o solo. No Egito antigo, as cheias do Nilo eram comemoradas em alguns anos como uma dádiva dos deuses e, em outros, como um castigo.
Oceano Mississipi
As cheias do maior rio dos Estados Unidos, que costumam aparecer na primavera, desafiam... os esforços da engenharia de conter o ímpeto das águas com diques e barreiras
Cenário alemão
A bacia do Reno é uma das áreas mais alagadiças da Europa (na foto, Frankfurt)
Tragédia no Ganges
O rio sagrado do hinduísmo, quando transborda, é sinônimo de destruição em Bangladesh
Correnteza irresistivel
O derretimento muito rápido das neves dos Alpes provoca enchentes violentas na França
Rotina brasileira
Chuva alaga a cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais
Um moleque enlouquece meio planeta
Trombas d’água no Chile, queimadas na Austrália, enchentes no Peru, seca no Nordeste brasileiro. Qualquer lugar está sujeito a calamidades como essas. Mas, quando elas acontecem todas ao mesmo tempo, o culpado é sempre o mesmo: El Niño, o pandemônio climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico.
Quem deu o nome de El Niño foram os pescadores peruanos, os primeiros a perceber os efeitos do fenômeno, que se manifesta perto do Natal e costuma durar um ano e meio. O Niño (menino, em espanhol) é uma referência ao nascimento de Jesus. Quando ele está em ação, os peixes desaparecem do litoral peruano e os pescadores deixam seus barcos em terra.
É que, nos anos do El Niño, os ventos alíseos ficam mais fracos, como se estivessem com preguiça de soprar. São eles que levam as águas quentes da superfície do Pacífico para o oeste, em direçao à Austrália. Em anos normais, esse deslocamento permite que as águas frias, mais fundas, subam para a superfície, ocupando o espaço vazio. A água fria, rica em nutrientes, atrai uma grande quantidade de peixes – um banquete para os pescadores e também para os pássaros, que dependem deles como comida.
Ao inverter esse mecanismo, o El Niño provoca um efeito dominó com conseqüências em boa parte do planeta. Lugares como a Austrália, a Indonésia e as Filipinas amargam secas catastróficas, pois deixam de receber as nuvens, carregadas de chuva, que normalmente são trazidas pelos ventos alíseos. Essachuva acaba sendo despejada nas regiões secas e desérticas do oeste da América do Sul. Isso é bom para as colheitas, mas também provoca enchentes devastadoras. O que leva o transtorno para lugares mais distantes é a mudança no mecanismo das correntes marítimas e dos ventos que, juntos, determinam o clima. Resultado: chuvas na África do Sul, tempestades na Califórnia e assim por diante.
A causa do El Niño permanece um segredo para os cientistas. Eles não sabem nem mesmo se o aumento de sua freqüência, nos últimos anos, é fruto do aquecimento global – a elevação da temperatura média do planeta por causa da poluição industrial – ou ocorre por puro acaso. Mas esperaram decifrar o enigma em pouco tempo. Muitos acham que o El Niño em curso atualmente é o mais grave desde que o fenômeno foi detectado. O certo é que será o mais estudado pela ciência.
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