terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dançando um Tango

0 comentários
Por Helder Silva
(heldersilva@vitoriadaconquistaemfoco.com)

Ela? Rosa, uma artista de rua. Não fazia artes manuais, acrobacias ou música. Ela fazia tudo isso: dançava. Seu tango era a união de todas as artes. Um tango de som cortante que misturava ritmos e contagiava a todos. Sem falar na beleza da sua intérprete. Rosa era o espetáculo personificado: estatura mediana, corpo escultural, olhos mais ferinos que os da própria Capitu. Se ela tinha um parceiro da dança? Não sei. Nunca reparei. E se não tivesse, não faria falta alguma.

Eu? Tomás, um simples admirador de sua beleza e arte. Saí do meu trabalho para vê-la, já que hoje ela se apresenta aqui numa viela próxima. Do nada surgiu uma multidão para assisti-la. Santa Maria começou a tocar e ela saiu, não sei de onde, para fazer sua performance. Movimentos lentos e rápidos, a sua beleza contrastando com a escuridão... Eu tinha que procurá-la.


- Rosa? – Disse eu, no final da apresentação.

- Boa noite, cavalheiro. – Seu sotaque me fazia estremecer.

- Sou um grande admirador...

- Você acompanha todas as minhas apresentações e é sempre generoso. - Ela sorriu e eu percebi que segurava o chapéu do seu par (devo repetir: nunca o percebi na dança, é sério).

- Sinceramente, você é muito boa mesmo.

- Você não sabe o quanto...

- Quero saber.

- Então você é um sedutor?

- Não, longe disso... Só queria um autógrafo. – apontei para os meus lábios.

Então ela sorriu e me beijou.

Pronto. Já imaginei a cena, só resta por em prática. Saí do meu lugar quando terminou a dança, pronto para executar tudo da mesma maneira que imaginei.

- Rosa? – Disse eu

- Boa noite, cavalheiro. – Seu sotaque realmente me fez estremecer.

- Sou um grande admirador...

- Mesmo? Fico muito feliz.

- Na realidade você é muito boa mesmo.

- Nossa, obrigada. Estou nas ruas por vontade própria... Já fui convidada, mas aqui me sinto mais artista.

- Mesmo? Deve ser por isso que é tão especial.

- Obrigada. Então você é um admirador?

- Sim... E quero um autógrafo. – apontei para os meus lábios.

- Aqui está.

Uma voz grossa ecoou em meus ouvidos e senti uma dor fortíssima no rosto, nos lábios mais especificamente, que começaram a sangrar de forma instantânea. Após sentir a dor pude enxergar o que ocorreu: sabe o parceiro que até então nunca havia notado? Ele era real, batia forte e era casado com ela. Como eu sei o último detalhe? Murro dói, com aliança dói mais ainda.

Nenhum comentário: